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Quem foi o maior piloto de todos os tempos?

Por Sergio Quintanilha 

Começamos este texto quebrando uma regrinha básica da convenção jornalística: o título contém uma pergunta. Foi proposital. Normalmente (mas nem sempre) as matérias que trazem título com ponto de interrogação não respondem à pergunta. É o caso aqui também, mas o objetivo não é responder ou provocar uma polêmica, mas sim apontar os caminhos possíveis para achar uma resposta – se é que ela existe.

Fangio na Ferrari: quem foi o maior piloto de todos os tempos?
Juan Manuel Fangio a bordo de uma Ferrari: documentário imperdível no Netflix. Crédito: Netflix

A polêmica sobre quem foi (ou é) o maior da história aparece em quase todos os esportes. É normal, pois os critérios de julgamento são diferentes. Quem foi maior no futebol: Pelé ou Maradona? Podemos incluir Messi nesta pergunta? E que tal Cruyff, o holandês que modificou o futebol? No boxe, no tênis, no atletismo, na natação, no basquete, no vôlei… enfim, em todas as modalidades esportivas, a discussão sobre quem foi o maior atleta de todos os tempos pode até não ter uma resposta definitiva, mas rende boas discussões e, muitas vezes, boas audiências.

Em primeiro lugar, é preciso ter claro que “o maior” (the greatest) não significa necessariamente “o melhor” (the best). O maior remete a uma carreira recheada de conquistas, a uma coleção de vitórias e títulos. Isso pode ser conseguido de várias formas, como a regularidade, as escolhas certas na carreira, as oportunidades, a sorte de estar numa boa equipe e até mesmo a longevidade. O melhor, não. O melhor tem a ver com a arte, com a capacidade técnica, com o talento puro. Nesse caso, o julgamento é ainda mais complexo, pois exige filtros de testemunhas de várias épocas.

No caso específico da Fórmula 1, as recentes reprises das vitórias de Ayrton Senna na TV Globo e o documentário Fangio: o rei das pistas, em exibição no Netflix, fazem essa discussão voltar à tona. Tanto na forma do “maior” quanto na forma do “melhor”. Fiquemos, pelo menos nesta crônica, com a questão do “maior” piloto de todos os tempos. De cara, essa pergunta não pode ficar restrita a apenas duas respostas: Senna (tricampeão) ou Fangio (pentacampeão). É preciso incluir pilotos como Jim Clark (bicampeão), Alain Prost (tetracampeão), Michael Schumacher (heptacampeão) e Lewis Hamilton (hexacampeão).

Só este pequeno filtro já é suficiente para causar polêmica, pois estão de fora Alberto Ascari (bicampeão), Jack Brabham (tricampeão), Jackie Stewart (tricampeão), Emerson Fittipaldi (bicampeão), Niki Lauda (tricampeão), Nelson Piquet (tricampeão), Fernando Alonso (bicampeão) e Sebastian Vettel (tetracampeão). Por que esses maravilhosos pilotos ficaram de fora do primeiro filtro? Por uma combinação que considera o número de títulos e a porcentagem de vitórias por grandes prêmios disputados. 

Vettel, por exemplo, embora seja o terceiro piloto com mais vitórias (53), tem um índice de 22% de aproveitamento em seu total de GPs. Para se ter uma ideia, ele perde para os escoceses Clark (25 vitórias/34,7%) e Jackie Stewart (27 vitórias/27,3%) e até para o inglês Stirling Moss (16 vitórias/24,2%), que nunca foi campeão, mas é reconhecido com um dos melhores de seu tempo. Se usássemos somente esse critério, entretanto, surgiriam várias distorções e nem sequer haveria uma discussão, pois o argentino Fangio, com 24 vitórias em 51 corridas, tem o impressionante índice de 47,1%.

Sem contar que antes da Fórmula 1 também haviam as corridas de Grand Prix, que foram até 1949, inclusive com uma prova no Circuito da Gávea, no Rio de Janeiro, e três na Argentina. A última corrida de Grand Prix foi disputada no dia 18 de dezembro de 1949, no circuito de Palermo, em Buenos Aires, e foi vencida pelo italiano Alberto Ascari, da Ferrari, que seria bicampeão da Fórmula 1 em 1952-1953. Para alguns aficionados do automobilismo, nenhum piloto foi maior que o italiano Tazio Nuvolari, que faturou 150 corridas em sua carreira, sendo 24 em Grand Prix. Outras feras da época foram os alemães Rudolf Caracciola e Bernd Rosemeyer. 

Voltemos à Fórmula 1. Essa questão é tão complexa que estou há alguns anos tentando encontrar uma fórmula que considere todas as variantes, principalmente a qualidade dos adversários de cada época e a superioridade dos carros conduzidos por esses grandes campeões. Estou avançando nessa pesquisa, que pretendo dividir com o colega Rafael Venâncio, também colunista aqui do blog e um dos mais profícuos pesquisadores de automobilismo na área acadêmica.

No caso da Fórmula 1, é preciso considerar algumas modificações ocorridas ao longo do tempo para dividir as épocas. É muito difícil determinar um ano exato para diferenciar uma época da outra, mas temos alguns critérios. A primeira fase foi de 1950 a 1957, antes da existência de um campeonato de construtores. Depois, podemos considerar uma fase em que os construtores eram os chamados garagistas e que vai até 1980. A partir de 1981 passou a vigorar o Pacto da Concórdia, que deixou a Fórmula 1 mais comercial e permitiu o fortalecimento dos motores turbo, que dominaram de 1983 a 1988. A fase iniciada em 1981 pode ser considerada até mais ou menos 1998 ou 1999. 

Depois disso, o sexto Pacto da Concórdia praticamente acabou com a força das equipes independentes, como McLaren e Williams, e deu todo o poder para as montadoras. Isso modificou o formato das corridas e permitiu uma força incomparável do dinheiro. Foi a partir daí que os pilotos das maiores equipes passaram a acumular um grande número de vitórias, favorecendo as estatísticas de pilotos como Michael Schumacher e Sebastian Vettel.

A última fase começa em 2014, quando a Fórmula 1 passou a usar motores híbridos. Nesse período, que já teve seis temporadas disputadas, a Mercedes-Benz faturou todos os campeonatos, sendo cinco com o inglês Lewis Hamilton e um com o finlandês Nico Rosberg. Diante de tudo isso, fica claro como é difícil estabelecer um critério justo para apontar o maior ou o melhor piloto de todos os tempos. Para os especialistas em Fórmula 1, entretanto, há um consenso: a disputa sobre “o maior” passa obrigatoriamente por Fangio, Senna, Schumacher e Hamilton; a disputa sobre “o melhor” passa obrigatoriamente por Fangio, Clark, Senna e Schumacher. O resto é pesquisa e bom senso.

Sergio Quintanilha é doutorando em Ciências da Comunicação na ECA-USP e escreve sobre automobilismo desde 1989 – twitter: @QuintaSergio