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Os alicerces metateóricos das teorias sociais sobre esporte

Nesta coluna, objetivo apresentar, de modo muito breve, alguns dos principais pressupostos metateóricos contidos em qualquer teoria social sobre esporte. Isso é particularmente importante pois, hoje em dia, muitos pesquisadores compreendem que, raramente (para não dizer nunca), o material empírico é condição suficiente para a escolha entre duas teorias. Na verdade, compreendem que essa decisão só pode se dar com base em uma série de critérios que só a metateoria pode revelar. Dito isto, começo pelos pressupostos ontológicos e epistemológicos.

Qualquer teoria sobre esporte assume, implícita ou explicitamente, alguma perspectiva sobre a realidade do cognoscível (objeto do conhecimento). Fundamentalmente, temos aqui duas perspectivas amplas e polarizadas: uma que afirma que essa realidade é exterior ao pesquisador e é dirigida por leis naturais e outra que, ao contrário, argumenta que ela tem uma “natureza” (inter)subjetiva, só podendo existir para um sujeito situado no tempo e no espaço. Da primeira, podemos deduzir duas posturas epistemológicas: 1 – que a realidade do cognoscível é possível de ser conhecida, se empregarmos os métodos corretos; 2 – que essa realidade nunca será conhecida, mas é possível se aproximar dela progressivamente, eliminando as teorias incorretas. Já da segunda posição, só podemos deduzir que tal realidade é uma construção do próprio pesquisador, o que não significa, de modo algum, que ela não exista.

Toda teoria social sobre esporte assume, também, implícita ou explicitamente, uma perspectiva sobre o ser humano e outra sobre a sociedade. Em relação à primeira, há aquelas interpretações que entendem que o ser humano é determinado pelo meio ambiente e/ou pela sua própria genética e há aquelas que compreendem que ele é autônomo, sujeito ao seu livre-arbítrio. Evidentemente, entre essas duas posições, há uma série de meios-termos, uma série de interpretações da atividade humana que considera tantos seus aspectos situacionais quanto voluntários. Em relação à segunda, há aquelas perspectivas que defendem que os conflitos sociais são uma “patologia”, produzida por desequilíbrios na sociedade, e aquelas que compreendem que eles são intrínsecos a ela, sendo fundamentais, inclusive, para a emancipação humana.

De qualquer modo, independentemente da posição que assumamos, é preciso reconhecer que todas elas possuem, evidentemente, pontos cegos, vantagens e desvantagens. A meu ver, o mais importante é que o pesquisador tenha clareza dos fundamentos que embasam sua teoria e saiba trabalhar com seus conceitos de forma coerente e consistente. Também me parece muito importante que ele tenha consciência das consequências éticas e políticas de suas posições. Assumir uma posição determinista de ser humano, por exemplo, possui consequências distintas das de assumir uma posição voluntarista. Mas isso será tema de outra coluna.