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MEMÓRIA ESPORTIVA – Entrevista com Poliana de Paula

Conheça a primeira sul-americana a competir na canoagem em Jogos Olímpicos

A canoísta Poliana Aparecida de Paula, hoje com 33 anos, competiu em 2008 nos Jogos Olímpicos de Verão, em Pequim, na China, pela categoria K-1, Slalom. Trata-se de um caiaque para uma remadora usado em corredeiras. A atleta ficou em 14º lugar, mas naquele momento alcançou dois feitos inéditos para a modalidade no Brasil.

Poliana se tornou a primeira canoísta brasileira a chegar a uma semifinal e a primeira mulher da América do Sul a competir na canoagem neste megaevento esportivo. Na época, a atleta de 1,63m de altura estava com apenas 18 anos.

Mas por onde anda Poliana de Paula?

Poliana de Paula na Canoagem Slalom, em Pequim 2008 (Foto: arquivo pessoal)

Após a aposentadoria precoce no esporte, a atleta se graduou em Educação Física e hoje mora no sul do país. Sempre discreta, Poliana não tem o costume de falar com jornalistas, mas concedeu uma entrevista à coluna Espírito Esportivo (ECA/USP) e resolvemos realizar duas produções sobre o tema.

Nesta primeira parte, apresentamos uma breve entrevista com a atleta onde ela conta sobre a lesão que a tirou da modalidade olímpica, sobre a falta de apoio adequado naquele momento e os planos para o seu futuro.

Na segunda edição abordaremos a relação de Poliana com a história da canoagem da Estância Turística de Piraju (no interior de São Paulo), região que se transformou em um centro formador de canoístas para o país.

Marcelo Cardoso (MC): Eu sei que, no início, você era uma estudante da zona rural da cidade de Piraju (SP) e teve contato com a canoagem por meio de um projeto social Conta mais sobre o começo da sua trajetória?

Poliana de Paula (PP): Fico feliz por você querer saber mais da minha história. Sim, morava na zona rural quando conheci o projeto Navegar. Eu e meus quatro irmãos participávamos (do projeto). Meus pais sempre fizeram muita questão da nossa participação no esporte, então, a gente saía do sítio às 5h30, em um ônibus da prefeitura de Piraju que levava os alunos do projeto. Pela manhã fazíamos aulas no rio e, depois, a gente almoçava na cozinha-piloto cuja comida também era fornecida pela prefeitura. No início da tarde nós íamos para a escola e, assim, passávamos o dia todo na cidade para voltar para casa no finalzinho da tarde. Mas o projeto era algo que todos adoravam ir. Tinha competição, tinha formatura dos alunos no final de cada ciclo. Foi um passo muito importante para a minha vida.

MC: Como foi a experiência de ser a primeira sul-americana a participar de uma edição de Jogos Olímpicos na canoagem em 2008?

PP: É incrível poder ser a primeira mulher a ter participado na canoagem slalom – um esporte muito pouco praticado por mulheres – e poder quebrar esse tabu de que é um esporte para homens. É um título que nunca ninguém vai poder me tirar. Poder ter aberto portas para as mulheres é maravilhoso.

MC: Quais eram as maiores dificuldades para praticar um esporte que não era o futebol, nem o basquete e nem a natação, ou seja, não estava entre os queridinhos da mídia e do público?

PP: Canoagem era um esporte de muitos poucos recursos, equipamentos, estruturas de treinamento. Em muitas viagens eu tinha que tirar dinheiro do bolso se eu quisesse competir. Só quem me acompanhou desde o começo sabe como foi chegar até a olimpíada. Foi muito suor, garra, choro e vontade de desistir. Meus pais e meu irmão mais velho, André, sempre foram os meus maiores apoiadores. O meu irmão sempre foi a minha maior inspiração na canoagem.

MC: Seu irmão, André Luiz de Paula, de 37 anos, foi para seleção, não é?

PP: Ele começou na canoagem antes de mim. Quando fui para a seleção brasileira, ele já estava lá. Depois parou com a canoagem e, após alguns anos, voltou como professor e atleta na cidade de Tibagi, no Paraná. O André comanda hoje uma escolinha de canoagem onde há vários atletas, mas ele também compete no caiaque extremo (modalidade de canoagem).

MC: Quais os títulos você considera os mais importantes e por quê?

PP: Acho que todos os títulos que eu tive durante a minha carreira são importantes. Cada um teve uma história, uma superação. Todos tiveram uma batalha anterior, mas, sem dúvida, meu maior título foi chegar até às olimpíadas. Mesmo sem a medalha, considero algo que poucos atletas têm a chance de viver. Será o mais o importante durante a minha vida: poder passar para os meus filhos, um dia. Ter história para contar.

MC: Você pode me falar sobre a lesão que a obrigou a encerrar a carreira? Como foi o período? Sua mãe contou que em 2008 você já estava lesionada quando foi para Pequim.

PP: Eu consegui o meu maior título – ir para as olimpíadas – com essa lesão no ombro, que vinha desde 2006. Eu já sentia dor, mas nunca tive um cuidado médico mais específico na seleção brasileira, onde permaneci até 2012, com a mesma lesão. Então, em 2014, eu decidi parar. A dor era muito incômoda para mim e decidi passar por uma cirurgia. Na época o médico perguntou como eu remei por tantos anos com o ombro machucado. Passei pela cirurgia, mas nunca voltou ao normal. Ainda convivo com a dor e a lesão. Infelizmente atletas malcuidados levam lesões para a vida toda.

MC: Você guarda alguma mágoa desta época? Acha que faltou apoio ou poderia ter sido diferente?

PP: Mágoa não, mas acredito que faltou apoio, com certeza. Na seletiva para as olimpíadas em 2012 minha mãe teve de ouvir de uma pessoa, de dentro da seleção, que eu fingia sentir dor. É humilhante demais para um atleta, que batalha tanto, não ser valorizado. Mas eles têm hoje uma estrutura que consegue dar todo suporte para a canoagem. É muito legal ver essa evolução no esporte.

MC: A mídia e as entidades esportivas poderiam incentivar mais a permanência da história dos atletas?

PP: Com certeza, sim. Todo atleta que passou pelo esporte, de alguma maneira, foi a chave para abrir portas ali e deixa um legado, uma história. Não se deveria deixar morrer a história de pessoas que fizeram a diferença, que, de alguma maneira, levaram o nome da cidade e fizeram crescer mais alunos e pessoas de bem.

MC: E agora você mora em Uruguaiana (RS). Sua mãe me disse que você está cursando uma “pós”. Quais os planos para o futuro? Fiquei sabendo, também, que você está noiva.

PP: Eu vim morar em Uruguaiana por conta do meu noivo e me formei em Educação Física. Agora estou cursando uma pós-graduação em Educação Física Escolar, com ênfase em Deficiência Física, para poder trabalhar na área na qual estudei. E, sim, estou noiva. Logo sai o casório. Eu quero formar família e poder passar tudo, toda a minha história para os meus filhos. Quero mostrar (para eles) quem eu fui.

Marcelo Cardoso é jornalista, professor universitário e autor da coluna Espírito Esportivo. Pesquisa o campo da Comunicação em suas várias interfaces com o esporte.

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