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As 5 partes fundamentais de um carro de Fórmula 1

Charles Leclerc e o Ferrari F1-75: cinco elementos perfeitos.

Um bom carro de corrida tem basicamente quatro elementos que precisam funcionar perfeitamente para que ele seja vencedor: “braço” (piloto), “chão” (chassi), “potência” (motor) e “aderência” (pneus). Em categorias muito velozes, como a Fórmula 1, um quinto elemento é necessário: o “vento” (aerodinâmica).

No caso da F1 2022, com novas regras, novos pneus e novos carros, a deu mais complexidade a este quinto elemento. De alguma forma, ele pode ser incluído também no item “chão”, que é como pilotos, mecânicos e engenheiros se referem ao chassi (suspensão, direção e freios).

Banido da categoria nos anos 1980, o efeito-solo do chassi foi reintroduzido na Fórmula 1 para que o carro de trás possa acompanhar mais de perto o carro da frente. Assim, o assoalho dos carros pode ser desenhado de forma a direcionar o fluxo de ar para que os carros fiquem mais firmes no chão e consigam desenvolver maior velocidade nas curvas.

Para quem deseja trabalhar como jornalista especializado em automobilismo, é fundamental saber que o piloto representa apenas 20% (considerando cinco elementos) ou 25% (considerando quatro) de um carro de corrida. Mas isso não é pouco. Num carro de F1, o piloto passa de conduzido a condutor em velocidades altíssimas – e é a capacidade de andar o mais rápido possível no traçado mais reto possível (fazendo tangências que “encurtam” a extensão das curvas) que diferencia os bons pilotos dos ótimos, e os ótimos dos gênios.

A aerodinâmica de um carro de F1 funciona não apenas no assoalho do carro, como dissemos, mas também em todas as superfícies. Isso engloba toda a carenagem, incluindo os “sidepods” (laterais onde ficam entradas de ar para itens de refrigeração do motor), pois eles direcionam o ar que passa por cima do carro. As asas dianteiras e traseiras existem para manter as rodas dianteiras e traseiras presas ao chão nas entradas e saídas de curva.

Com todos esses elementos novos, os carros da Fórmula 1 passaram a quicar na pista em plena reta, de forma a impedir que os pilotos tenham controle total do carro. Esse fenômeno é conhecido como “porpoising”. Ele ocorre porque a aerodinâmica joga a traseira do carro para baixo, e quando acaba o curso da suspensão, a traseira sobe, em seguida desce novamente, devido ao efeito-solo, e imediatamente sobe de novo.

Para corrigir isso, as equipes trabalham no “chão”, ou seja, no chassi. O chassi é composto pelo assoalho do carro, pela suspensão (molas, amortecedores e barras), pela direção e pelos freios. Exatamente como num carro de passeio, que a gente dirige nas ruas. Só que num carro de F1 a suspensão é muito dura e o curso do amortecedor é pequeno. Sem um bom “chão”, ou seja, sem um chassi que mantenha o carro na altura ideal em relação à pista, uma direção que o faça seguir direções de forma precisa e freios potentes para reduzir a velocidade no final das retas, não há piloto que faça milagres.

Lewis Hamilton, Michael Schumacher e Ayrton Senna são milagreiros? Não. O que diferencia esses pilotos geniais é que eles têm maior capacidade de compensar – com os braços, os pés e a mente – deficiências desse sistema mecânico.

Outro elemento fundamental é o motor, pois é ele que envia potência para as rodas de tração (traseiras, no caso) e fazem o carro andar. Potência tem a ver com velocidade versus tempo. Um carro muito potente é capaz de cumprir uma determinada distância em menor tempo do que um carro pouco potente. Claro que existe também a relação peso/potência, por isso na Fórmula 1 e no automobilismo em geral o peso mínimo dos carros é ditado pelo regulamento.

Curiosamente, quando James Gordon Bennett Jr. – editor do jornal New York Herald – criou, no distante ano de 1900, na França, a categoria que foi a pedra fundamental da atual Fórmula 1 (Copa Gordon Bennett), o regulamento estipulava peso máximo para os carros e não peso mínimo. Isso porque naquela época os fabricantes de automóveis ainda buscavam potência nos motores, e também porque as corridas eram de longa duração e os carros levavam peças sobressalentes e até um mecânico junto com o piloto (ou o segundo piloto).

Na Fórmula 1 atual, existem três fornecedores de motores: Mercedes, Ferrari e Renault. Como a Honda abandonou a F1 após conquistar o título de 2021, a Red Bull e a AlphaTauri passaram a correr com o antigo motor V6 híbrido da Honda, mas preparado por uma nova empresa, a Red Bull Powertrains. Parece uma troca simples, mas na verdade a Red Bull perdeu a parceria da filosofia da Honda, que resulta em extrema dedicação e atenção aos detalhes durante 24 horas e 7 dias por semana (24/7).

Nas três primeiras corridas de 2022, a Red Bull teve três quebras de motor (duas com Max Verstappen e uma com Sergio Pérez). Por isso, a equipe era a mais cotada a receber os novos motores da Porsche quando a montadora alemã entrar na Fórmula 1, a partir de 2026, com novo regulamento de motores. Mais equilibrada no conjunto motor/chassi/aerodinâmica, a Ferrari ganhou duas das três primeiras corridas com Charles Leclerc.

Finalmente, resta o elemento pneus. Pneu é tudo num automóvel porque é ele que faz o contato do veículo com a pista. Quanto mais exigente é a performance de um carro, mais importantes serão os pneus. A Fórmula 1 é muito didática na importância que os pneus têm para um carro – mesmo os automóveis de passeio.

Por que a F1 corre com pneus “carecas” (slick) e os carros de passeio não devem usar pneus assim? Simples. Porque na Fórmula 1, quando chove, os pilotos primeiro passam a fazer “traçado de chuva”, ou seja, evitando frear e acelerar sobre a borracha deixada no traçado usado pelos carros, e depois trocam por pneus com sulcos (biscoitos).

Como nos carros de passeio é proibido ficar ”sambando” de um lado a outro na estrada, e existem duas áreas de borracha (ida e vinda) nas estradas de pista simples (ou mais áreas emborrachadas nas estradas de pista dupla), e também não há boxes para que os motoristas troquem os pneus, é uma medida de segurança e de praticidade utilizar pneus com sulco 100% do tempo. Quanto mais profundo o sulco, mais água do piso pode escoar entre os pneus, mantendo seu contato com a pista. Por isso, a F1 tem também pneus intermediários, para pista levemente molhada.

Ficamos então com esses cinco elementos para o sucesso de um carro de Fórmula 1: piloto (20%), motor (20%), chassi (20%) aerodinâmica (20% e pneus (20%). Lembrando sempre que esta conta não é científica, pode variar conforme a situação. Mas, na F1 atual, não caberia a famosa frase do comendador Enzo Ferrari, criador da Scuderia italiana: “Aerodinâmica é para quem não sabe fazer motor”.