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Onde há morte, há jornalistas

Carlos Figueras, jornalista automotivo argentino. (arquivo pessoal)

Nelson Traquina ensina que “onde há morte, há jornalistas”. Em seu estudo sobre os valores-notícia do jornalismo, Traquina considera a morte o critério número 1 que transforma acontecimentos em notícias. Quando morre um jornalista, entretanto, o próprio jornalista se transforma em sua notícia derradeira – e a única que todos os outros poderão noticiar, menos ele próprio.

Ele não pode dar essa notícia derradeira, mas ninguém terá tanta influência sobre essa notícia quanto ele próprio. É o seu trabalho de anos, o seu legado no jornalismo, que vai fazer a notícia ser mais ou menos importante, mais ou menos dolorosa para leitores, telespectadores e ouvintes. Afinal, durante sua vida, o jornalista não pode controlar as notícias, mas tem total controle sobre a forma como vai noticiar cada fato.

Escrevo essas linhas com tristeza por conta da notícia do falecimento do querido Carlos Figueras, jornalista argentino, sumidade no setor automotivo à frente de Auto Test, veículo que teve grande importância no impresso e depois se estabeleceu também na mídia digital. Carlos Figueras vivia em Buenos Aires e morreu aos 76 anos, em plena atividade, cobrando a publicação de um texto que acabara de escrever. Uma perda para o jornalismo automotivo da Argentina.

Tive a oportunidade de participar de vários test drives na Europa com Carlos Figueras, que sempre levava suas luvas para “manejar”. Ex-piloto, Carlos era um dos sócios da Motorpress Argentina e sofria (como nós na Motorpress Brasil) com algumas imposições do Grupo Motorpress, especialmente com as longas reuniões e o rígido controle das contas.

Carlos Figueras era sócio de JorgeAugé Bacqué quando a Auto Test argentina foi comprada pela Motorpress. Eles deram muitas dicas para mim para a jornalista Isabel Reis quando negociamos as revistas Carro e Racing com a Motorpress. Já dentro da Motorpress Ibérica fizemos várias reuniões em Buenos Aires.

Numa ocasião, ficou decidido que eu (pelo Brasil) e Carlos (pela Argentina) tocaríamos um projeto internacional chamado “Auto de Ouro”, para premiar os melhores carros dos dois países. As premiações ocorreriam a cada ano em um país.

Infelizmente o projeto não foi executado, pois havia muitas prioridades tanto na Motorpress Brasil quanto na Motorpress Argentina. Mas seria lindo. Uma pena. O tempo passa e nos tira jornalistas importantes, como foi Carlos Figueras para os “hermanos” amantes de automóveis.

Mas não só ele. Nos últimos anos, aqui no Brasil, outros jornalistas importantes da área automotiva nos deixaram. Uma das mortes mais sentidas por colegas e leitores foi a do jornalista José Luiz Vieira, em maio de 2020, aos 88 anos. JLV deixou uma das maiores obras do jornalismo automotivo: uma grandiosa coleção no qual conta “A História do Automóvel” em cinco volumes, que saíram com o selo da revista Quatro Rodas.

José Luiz Vieira dividiu a obra da seguinte maneira: Volume 1 – Da pré-história ao final do século XIX; Volume 2 – Do início do século XX à era da produção em massa; Volume 3 – O período entreguerras; Volume 4 – Do início da Segunda Guerra Mundial ao final dos anos 1960; Volume 5 – Da invasão asiática aos dias atuais.

Mas José Luiz Vieira deixou uma obra ainda maior. Um dos criadores da revista Motor 3. publicada de 1980 a 1987 pela Editora Três, José Luiz encantou leitores e influenciou jornalistas com uma narrativa preciosa sobre os carros que testava. Apesar de não ter tido o sucesso comercial de revistas como Quatro Rodas e Auto Esporte, a Motor 3 é considerada a melhor publicação do setor por sua profundidade técnica e pauta diversificada (falava de carros, motos, barcos, aviões etc.).

Outro jornalista que brilhou na Motor 3 – e também na Quatro Rodas e na Auto Esporte – foi Expedito Marazzi, um dos mais brilhantes test drivers do jornalismo automotivo. Marazzi, assim como Carlos Figueras, foi quem introduziu os testes instrumentados na QR. Gostava de participar das corridas. Há também quem troca o jornalismo pela comunicação empresarial, como foi o caso de Sergio Duarte, editor de testes de Quatro Rodas, que fundou a empresa SD Press, atualmente responsável pela assessoria de imprensa da Caoa Chery.

Sergio Duarte, que andava sempre muito elegante, colecionava cartuns dele mesmo e de seu indefectível bigode, em todo país novo que visitava. SD, como era conhecido, não quis um velório. Em doença terminal, disse que seu corpo deveria ser usado para estudos de Medicina na USP.

Outro jornalista automotivo elegantíssimo e que nos deixou recentemente (2019) foi Roberto Nasser. Com barba e bigodes cultivados à moda do século XIX e sempre de gravatinha borboleta, Nasser criou em Brasília o Museu Nacional do Automóvel, com um acervo de mais de 40 carros raros. Nasser não era só jornalista; era também advogado. Por isso, às vezes usava termos incomuns em suas matérias.

Nasser era um dos colunistas da revista Carro na metade dos anos 90. Lembro de uma ocasião em que a editora da seção, Fernanda Pacheco, comentou brincando: “Eu sempre leio a coluna do Nasser com um dicionário na mão”. Ele criou o termo “antigomobilismo” (para se referir a carros clássicos) e foi o fundador e primeiro presidente da Federação Brasileira de Veículos Antigos.

Da turma de jornalistas empreendedores com grande conhecimento de automóveis, também tivemos a perda de Josias Silveira, em novembro de 2021. Josias era o “tio” que uma enorme quantidade de jornalistas do setor, pois nos anos 80 criou as revistas Duas Rodas e Oficina Mecânica. Josias tinha um texto absolutamente delicioso – era uma extensão dele mesmo, fazendo o leitor se divertir e sorrir enquanto se informava.

Josias Silveira era capaz de dar uma informação técnica sobre qualquer automóvel com uma leveza e uma criatividade que faziam o leitor querer sempre mais. De suas histórias pessoas e engraçadas surgiu o livro “Sorvete de Graxa”, que publicou em 2013. Em 1976, por ocasião do lançamento da moto Honda CG 125, Josias Silveira viajou com a pequena motocicleta de Manaus (onde era fabricada) até São Paulo (sede de sua editora, a Sigla).

A pandemia de Covid-19 tirou dois queridos jornalistas do setor, Henrique Neves, que era um craque das câmeras de televisão, e Daniel Messeder, com quem trabalhei na revista Carro. Henrique era um talento que brilhou também na cobertura de futebol da Fox e foi um dos fundadores da Ali Produções, que atende as montadoras nos lançamentos, fornecendo imagens para toda a imprensa. Daniel foi um dos sócios do site CarPlace (atualmente Motor1) e levou para a internet toda a expertise de testes instrumentados que desenvolveu nas revistas 4×4&Cia, Carro e Autoesporte.

Fiquei arrasado com a morte de Daniel Messeder, pois ele foi vítima do descaso do governo brasileiro com a Covid. Escrevi no Facebook: “Daniel, 39 anos, está morto. Não por acaso. Está morto porque somos um dos poucos países do mundo que desprezou a pandemia e até hoje aceita e normatiza o que é inaceitável. Se não houvesse tanta gente contaminada, talvez não tivesse pegado o vírus.”

Finalmente, em abril de 2022, o setor automotivo se entristeceu também com a morte prematura de Luís Perez, aos 50 anos. Luís era um jornalista irrequieto, criativo, hiperativo, e que sofreu muito com as mudanças no jornalismo, pois o mercado foi (e ainda é) cruel com muitos ótimos profissionais. Tinha grande capacidade e era versátil – uma ocasião dei a ele a missão de ser editor-chefe da Avião Revue e ele deu conta do recado.

Como se vê, cada jornalista, a seu modo, consegue escrever sua história. Mesmo num setor técnico, como o jornalismo automotivo, existe espaço não apenas para aqueles que mergulham de cabeça no mundo dos carros, como Carlos Figueras, Expedito Marazzi, José Luís Vieira, Roberto Nasser e Josias Silveira, como também para aqueles que migram para a assessoria, como Sergio Duarte, que transformam o setor, como Henrique Neves e Daniel Messeder, e também para quem é multitalento, como Luís Perez.

Escrever de forma cuidadosa, traduzir os segredos do automóvel para o público e não se render à pressão da indústria automobilística é a maneira que um jornalista tem de se manter vivo na memória dos leitores, dos telespectadores, dos ouvintes, das fontes e dos colegas.

Nota do Editor: para conhecer a obra dos jornalistas citados, visite o MIAU (Museu da Imprensa Automotiva): http://www.miaumuseu.com.br/