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Piquet chamou Hamilton de “neguinho” duas vezes. Como o jornalista especializado em F1 deve reagir?

Nelson Piquet, três vezes campeão mundial de Fórmula 1, se referiu a Lewis Hamilton, sete vezes campeão do mundo, como “neguinho”. A fala ocorreu pelo menos duas vezes de forma clara numa entrevista para ao Canal Enerto, no YouTube, e se referia a um acidente entre Hamilton e Verstappen no GP de Grã-Bretanha de 2021. Na ocasião, Max foi parar no hospital e Lewis ganhou a corrida. O diálogo no YouTube aconteceu assim, começando pelo entrevistador, e nele Piquet escolhe as palavras:

– Você acha que esse acidente que o… que o Verstappen teve com Hamilton foi meio parecido com esse que teve na… na… acho que foi na Inglaterra.
– Em Silverstone?
– É.
– Não. O… o… o… o… o… o neguinho meteu o carro e deixou.
– Mas foi o que o Senna fez.
– Nããããão. O Senna não fez isso. Ow! O Senna saiu reto. Reto!
– Você acha que ele não faria aquela curva?
– Ele?
– É.
– Nunca!
– Entendi.
– Não, ele foi pra… ele foi pra… assim… “aqui eu [ar]ranco ele que qualquer maneira”.
– [silêncio]
– O neguinho deixou o carro em uma curva… é que você não conhece a curva. É uma curva muito de alta, não tem jeito de passar dois carros. E não tem jeito de você botar o carro de lado… fez de sacanagem, sabe?
– Entendi, ele fez de sacanagem.
– Agora, sorte que só o outro que se fodeu, né, ele tem muita sorte.

Nelson Piquet é racista em suas relações individuais? Não acredito. Ele não é um cara que vai sair por aí evitando contatos com pretos. Piquet cometeu uma fala racista? Sim, com certeza. Adianta querer “enquadrar Piquet” em qualquer discurso politicamente correto? Não. Ele já disse que está “cagando” sobre o que pensam dele. Devemos, como jornalistas especializados em Fórmula 1 e admiradores da carreira do tricampeão, criticar Piquet por sua fala? Sim, com certeza. Pois no caso da entrevista ao canal do YouTube, não se trata de uma fala politicamente incorreta, mas sim de uma fala racista. É inadmissível, sob qualquer pretexto. Simples assim. O racismo está explícito na entrevista. Portanto, ele pode não ser racista nas suas relações individuais, mas é racista no pensamento.

Um dia depois da fala racista de Nelson Piquet, veio à tona uma foto sua e de e seu irmão  Geraldo abraçando carinhosamente uma mulher preta. Mas isso não apaga o racismo na entrevista. Até porque Nelson Piquet não chamou Lewis Hamilton de “neguinho” duas vezes seguidas de forma totalmente natural. Na primeira vez ele pensa bastante antes de escolher um termo para se referir a Lewis. Escolheu “neguinho”. Por óbvio que a palavra “neguinho”, isolada, não é racista. Mas Nelson não estava demonstrando carinho por Lewis. Muito pelo contrário, estava acusando-o de jogar sujo, de ser maldoso e irresponsável na pista, de colocar a vitória acima de qualquer ética esportiva.

Pouco importa aqui se Hamilton foi desleal na manobra que resultou na saída de pista e batida de Verstappen. É possível condenar um erro ou uma atitude sem apelar para termos racistas. O que está em questão é que um piloto tricampeão escolheu a dedo a palavra “neguinho” para se referir a um piloto heptacampeão que, por coincidência, disputava posição contra o namorado de sua filha, Kelly Piquet.

Tento entender por que Nelson Piquet quer deixar explícito esse seu lado lamentável. Na cabeça dele, chamar Hamilton de “neguinho” duas vezes não significa racismo, mas ele bem sabe que marca uma posição contra um ativismo que, aparentemente, o incomoda. Nelson já deu dezenas de demonstrações de que não quer ser enquadrado em sua forma de se expressar. Talvez por isso, defende o bolsonarismo com toda sua convicção. Já se dispôs até mesmo a conduzir o carro presidencial num desfile em Brasília. Sabia que seria chamado de “chofer de fascista”, como foi, e provavelmente não temia ser chamado de “racista”, como está sendo.

Apesar de toda a repercussão negativa, por parte do mundo inteiro, incluindo a organização da Fórmula 1, a Mercedes e o próprio Lewis Hamilton, por meio de seu perfil no Twitter, o tricampeão não se manifestou. Como se Piquet, ele está “cagando” para o que pensam dele. Mas o fato é que homens como Lewis Hamilton incomodam homens como Nelson Piquet, que não aceitam o mal que certos costumes causavam em pessoas inocentes. Por isso, recusam-se a evoluir como sujeitos sociais, não apenas aceitando, mas promovendo a inclusão e a diversidade.

Lewis Hamilton, mais do que ser um dos raríssimos homens pretos que ocupou o lugar de piloto na história da Fórmula 1, e o único a ser campeão do mundo, incomoda muita gente, especialmente campeões de outras épocas, devido ao seu ativismo identitário. Hamilton quer ser mais do que piloto, enquanto Verstappen está feliz em ser um dos melhores pilotos de seu tempo, como foi o Piquet dos anos 1980 e começo dos 90. O incômodo com esse mundo que não aceita velhos costumes homofóbicos e racistas pode ter sido o gatilho que levou Nelson a escolher o termo “neguinho” para se referir a Lewis.

Afinal, Nelson Piquet é conhecido por sua sinceridade. Ele sempre foi muito mais autêntico do que Ayrton Senna, que escolhia as palavras a dedo, e do que Emerson Fittipaldi, um mestre na arte das relações públicas. Por causa disso, Piquet colecionou histórias em que tratou mal algum jornalista ou se irritou com alguma pergunta que considerou ruim. Ok, Nelson tem direito de ser assim. Mas é mentira que ele não goste de jornalistas. Gosta, sim. Piquet gosta dos jornalistas que aceitam suas palavras afiadas, eventualmente preconceituosas ou até racistas, que jamais o contestem, porque ele aprendeu a ser um mestre da comunicação do jeito dele.

Ao chamar escolher chamar de “neguinho”, duas vezes, um monumento do esporte como Sir Lewis Carl Davidson Hamilton, cavaleiro da Coroa Britânica e sete vezes campeão mundial de Fórmula 1 – quando seria natural se referir a ele como Lewis, pois no ambiente da F1 TODOS se tratam pelo primeiro nome –, Piquet quis provocar a polêmica.

Mais uma vez ele passou um recado: cada um tem a “liberdade” de ser como quer. Para o bolsonarismo, do qual ele é fiel seguidor e porta-voz quando necessário, a palavra “liberdade” é usada de forma enviesada, para justificar todas as coisas erradas, como atacar a democracia, ser preconceituoso, impedir um abordo legal de criança estuprada aos 9 anos e até mesmo de cometer falar racistas.

Portanto, embora não seja racista em suas relações individuais ou até mesmo coletivas, Nelson Piquet tem o racismo estrutural explícito em sua fala. E é este o ponto que nós, como jornalistas especializados em F1, devemos criticar. Foda-se se ele tem milhões de fãs. Foda-se se ele nunca mais vai dar uma entrevista. Ao insistir numa terminologia racista, ainda que sem intenção de ser racista, Piquet endossa o racismo estrutural, pois muitas vezes ele nem sequer é percebido por quem o pratica. Tomara que Nelson Piquet faça um exame de consciência depois da péssima repercussão de suas palavras.

Nelson Piquet durante a entrevista para o Canal Enerto no YouTube. (Foto: Reprodução YouTube)

Lewis Hamilton em seu perfil no Twitter: “É mais do que linguagem. Essas mentalidades arcaicas precisam mudar e não têm lugar no nosso esporte. Eu fui cercado por essas atitudes e fui alvo de minha vida toda. Houve muito tempo para aprender. Chegou a hora da ação. Vamos focar em mudar a mentalidade”. (Foto: Reprodução Twitter)