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40 anos da primeira página que emocionou o Brasil

Foto – Reginaldo Manente

Jovens, bom dia! Vocês têm ideia de como era a vida sem internet, sem Google e sem redes sociais? Bem, era mais lenta – porém mais profunda. Há exatos 40 anos, no dia 6 de julho de 1982, a primeira página do Jornal da Tarde interpretou e imortalizou o dia 5 de julho de 1982. Precisamos voltar no tempo. Um tempo em que a gente chamava as capas de jornal de primeira página.

Em 1982, o Brasil era um país cheio de esperança. Estávamos saindo de uma ditadura militar, embora ainda houvesse um general-presidente, e tínhamos esperança, muita esperança. Fazia 12 anos que não ganhávamos uma Copa do Mundo. Uma eternidade para a época (hoje faz 20 e nem parece).

A Seleção Brasileira era comandada por Telê Santana e todos os craques do Brasil jogavam (acredite!) nos times do Brasil! Na Copa do Mundo da Espanha, o Brasil foi como favorito. Zico, Leandro e Junior eram do Flamengo. Sócrates era do Corinthians. Falcão era do Internacional. Oscar e Carlos eram da Ponte Preta. Careca era do Guarani (mas se contundiu e não foi). Waldir Peres e Serginho eram do São Paulo. Luizinho, Toninho Cerezzo e Éder eram do Atlético Mineiro. Paulo Isidoro era do Grêmio.

A gente realmente se via representado por aqueles caras. Homens e mulheres. Crianças, nem se fala! Velhos, como sempre, resmungavam e viam mais virtudes nas seleções de 1958 e 1970. Mas também amavam a seleção canarinho. Porém veio o dia 5 de julho de 1982, no acanhado estádio Sarriá, em Barcelona, e o Brasil perdeu para a Itália por 3-2. Três gols de Paolo Rossi.

Se a gente chorou? Eu estou quase chorando agora, ao escrever este texto.

Mas era a época do jornalismo mais lento, porque a vida era mais lenta. O tempo não era tão acelerado como hoje. Claro que havia as imagens da televisão e a agilidade do rádio. Mas ninguém ficava sem o jornal do dia seguinte. E, claro, já naquela época, para além de informar o resultado do jogo, os bons jornais traziam análises da partida. Diziam não apenas o que aconteceu, mas por que aconteceu. As revistas semanais também tinham esse papel. O resto, jovens, eram conversas de botequim e mesas redondas no rádio e na televisão.

Na manhã do dia 6 de julho de 1982, o Jornal da Tarde surgiu nas ruas de São Paulo (ele circulava apenas na capital) com a melhor primeira página de todos os tempos. A foto de Reginaldo Manente tinha sido ampliada pelo Editor de Esportes do JT, Mario Marinho, para ilustrar a capa do Caderno de Esportes (sim, tinha isso nos melhores jornais). Não havia um título, mas sim uma legenda que resumia tudo: Barcelona, 5 de julho de 1982.

Mas a foto não era do Zico, do Sócrates, do Cerezzo e muito menos do Paolo Rossi. Era a foto de um menino brasileiro, que, junto com sua família, não conteve o choro ao final da partida no Sarriá. Era a foto de um jovem torcedor com a camisa da Seleção Brasileira! Um torcedor choroso, triste, mas não cabisbaixo; altivo!

Era o retrato de uma nação inteira. Uma nação que tinha a capacidade de se emocionar com a primeira página de um jornal e que não perdia a esperança de ser feliz. Na verdade, o mundo inteiro chorou, menos a Itália de Paolo Rossi, para azar da Copa do Mundo.

O tempo era mais lento e, assim, todos os 120 milhões de brasileiros tiveram tempo de remoer as mágoas. Culpamos Telê por não ter jogado pelo empate (nós que vibrávamos porque o time só queria jogar bonito e vencer). Lamentamos a contusão de Careca, que ficou ausente da Copa e era mais eficiente do que Serginho. Xingamos Cerezzo por atravessar a bola na intermediária. Culpamos Junior por estar mais interessado em cantar “Voa, Canarinho, Voa” do que em marcar o Paolo Rossi. Mandamos o juiz e mãe dele para o inferno por não ter marcado o pênalti que Gentile fez em Zico. Mas perdemos: 3-2. Nada poderia mudar isso. E dormimos tristes.

No dia seguinte, a primeira página do Jornal da Tarde extrapolou a Pauliceia e virou notícia até em outras mídias. E nem era para ser assim. Era para ser “apenas” a capa do Caderno de Esportes do JT, graças à sensibilidade do fotógrafo Reginaldo Manente e à perspicácia do editor Mario Marinho. Mas Celso Kinjô, um dos editores do JT, passou pela mesa de Marinho e, ao ver a página diagramada com aquela fotaça, disse que ela não seria a capa do Caderno de Esportes e sim do Jornal da Tarde. Santa Hegemonia, Batman!

Manente ganhou o Prêmio Esso com a foto. Marinho ganhou a glória da ideia, pois sem o corte que ele deu na foto, aproximando o rosto do menino José Carlos Vilella Rabello Junior, e a legenda feita por Fernão Lara Mesquita, no lugar do título, o impacto não seria o mesmo. O Jornal da Tarde, que já morreu porque nosso mundo ficou digital, ganhou a eternidade.

Faz 40 anos. São Paulo, 6 de julho de 1982, o dia que eternizou os fatos de Barcelona, 5 de julho de 1982.