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Invisibilidade que mata; experiência que inspira

Os Jogos Regionais, segunda competição esportiva mais importante do estado de São Paulo, está acontecendo há algumas semanas. Mas praticamente ninguém sabe disso. Se você der um google agora vai encontrar poucas reportagens de prefeituras de cidades do interior, mas nada de resultados, programação e histórias. Tampouco encontrará o site oficial do governo paulista, já fora do ar em respeito à legislação eleitoral.

Aquilo que atletas, jornalistas e fãs de esporte temiam finalmente aconteceu: os Jogos Regionais se tornaram um fantasma de si mesmo, invisíveis aos olhos do público.

Não é de hoje que tanto os Regionais quanto, principalmente, os Jogos Abertos convivem com esse dilema. Ao mesmo tempo que mobilizam centenas de cidades do estado e grandes ídolos do esporte nacional, como medalhistas olímpicos e mundiais, praticamente ninguém fica sabendo de seus jogos, eventos e histórias.

Mas em 2022 essa invisibilidade extrapolou todos os limites. Além do completo desconhecimento em torno dos Jogos Regionais, que mudou completamente sua estrutura e ninguém falou nada sobre isso, os Jogos Abertos também se movimentam nas sombras. Poucos ficaram sabendo, por exemplo, que a sede desse ano passou de Sorocaba para São Sebastião a poucos meses da abertura do evento.

O esporte depende da visibilidade (ou de sua televisibilidade, como afirmou o sociólogo Miquel de Morágas Spá). Isto é, a capacidade de gerar imagens, aqui no sentido de promover a imaginação. Isso cria histórias – e estas criam memórias. Assim, é possível atrair torcedores, praticantes e, claro, patrocinadores. Estar visível representa a sobrevivência do atleta, da modalidade ou da própria competição.

No caso específico dos Regionais e Abertos, é um paradoxo que o governo de São Paulo tenta resolver há alguns anos – mas nem sempre com sucesso. Diversas tentativas foram feitas nos últimos anos, mas nenhuma ajudou a potencializar essa visibilidade e trazer mais recursos financeiros.

Pelo contrário, apenas evidenciou ainda mais o problema. A última medida, adotada nesse ano, beira o inacreditável: os Jogos Regionais não têm mais sede única. Os eventos foram espalhados em diversas idades e serão disputadas ao longo de várias semanas. Pode ser uma técnica importante para controlar despesas, mas enterra o principal legado de Baby Barioni: a festa e a experiência em torno do esporte.

O jornalista Demétrio Vecchioli, do blog Olhar Olímpico, do UOL, foi um dos poucos que colocou o dedo na ferida em um fio postado em seu Twitter. Ele lembrou bem: eventos como Regionais e Abertos valem mais pela vivência do que pelo resultado em si.

É claro que a competição importa (é esporte, no fim das contas), mas o diferencial dessas disputas é a possibilidade da criança conhecer novas modalidades ao lado de seus pais, de atletas amadores competirem e dividirem alojamentos e de pequenas cidades criarem políticas públicas que estimulem a participação de seus habitantes.

Quando criou os Abertos, em 1936, e posteriormente estimulou a criação dos Jogos da Araraquarense (um dos eventos que deu origem aos Regionais), Baby Barioni queria eventos que mobilizassem os esportistas de cidades pequenas do interior do Brasil. A ideia era conectar diferentes esportes e municípios – e não separá-los em divisões, regiões ou clusters, para usar um termo da moda.  

Se não há experiência, não há visibilidade na área esportiva. A relação dessas competições com os atletas e torcedores não pode ser uma ilusão do olhar, mas de uma vivência imaginística completamente nova, segundo os preceitos de Vilém Flusser.

O que volta ao cerne da questão: como ter experiência se os Jogos Regionais e Abertos estão cada vez mais distantes de sua proposta original – e que é o que os diferenciam no fim das contas? E sem essa experiência, como atrair mais atenção para continuarem existindo?

O grande erro, talvez, é pensar que Jogos Regionais e Jogos Abertos sejam apenas um evento esportivo. É preocupante pensar que há uma iniciativa que mobiliza centenas de cidades paulistas e milhares de pessoas e não há uma ação sequer para promover cultura e turismo regionais, medidas socioambientais, educativas, entre outros tópicos.

O envolvimento de mais secretarias e áreas na organização dessas competições certamente auxiliaria a, pelo menos, promover essa experiência entre os praticantes e torcedores antes, durante e depois dos Jogos. Com o tempo, seria possível mostrar aos meios de comunicação e às mídias sociais o que, de fato, representam esses eventos: espaços para trocas simbólicas que promovem a história, a cultura e, claro, o esporte de suas cidades.

Em suma: obter a comunhão por meio da prática esportiva, como sugere Hans Gumbrecht.

É triste saber que os Jogos Regionais estão acontecendo neste exato momento e não é possível encontrar uma história bacana ou algum resultado que seja. Esperava que após dois anos de adiamento por conta da pandemia de covid-19, poderíamos celebrar o retorno em grande estilo, com uma verdadeira festa esportiva entre as cidades paulistas. Em vez disso, as duas competições se afundam cada vez mais na invisibilidade. É preciso resgatá-las antes que seja tarde demais.

Gustavo Longo é jornalista especializado em cobertura esportiva e mestre em Ciências da Comunicação na ECA/USP