A efêmera eternidade do esporte

Cristiano Ronaldo no banco de reservas no jogo Portugal 6-1 Suíça. Foto: Reuters.

 

Toda eternidade só vale enquanto dura. Assim como o amor do Poetinha era infinito enquanto durasse, vemos a cada quatro anos, na Copa do Mundo de futebol masculino, que os heróis do esporte só são eternos enquanto duram.

E em vida eles não duram. Precisam morrer e sair da vida para entrarem na história. Enquanto vivem parecem eternos, mas a vida é implacável.

Cristiano Ronaldo, o eterno CR7, viu a própria eternidade ruir aos 37 anos quando foi para o banco de reservas e Portugal goleou a Suíça por 6-1. Pior (para o ex-eterno): seu substituto, o “miúdo” Gonçalo Ramos, 21 anos, fez três gols.

Fosse em outros tempos, teria roubado não apenas sua efêmera eternidade, mas até sua camisola número 7.

Longe da Copa no Qatar, mas perto da eternidade, o rei Pelé nem de longe lembrava o super jogador que só não fez chover no México, em 1970. De repente, o cara dos “mil gols, mil gols, mil gols, mil gols, só Pelé”, não era só Pelé — era também o frágil Edson Arantes do Nascimento.

Edson jamais seria eterno. Ele só emprestou um corpo ao imortal Pelé. Mas é o Pelé que o público vê, com tristeza, murchando como uma bola furada. Mas que vai renascer para a eternidade quando Edson, o corpo, não for mais necessário.

O mesmo aconteceu na Fórmula 1 com Senna, que parecia eterno aos 34 anos, até encontrar o muro da curva Tamburello, em Imola. Numa cena chocante, o capacete de Senna pendeu para o lado e Galvão Bueno viu naquele pequeno movimento um sinal de vida. “Mexeu a cabeça!” Tinha que ser! Afinal, Senna era imbatível, era eterno. Só que não. Estava morto. Sua eternidade só veio quando Schumacher o tirou do pedestal da vida e ele a reconquistou saindo da vida.

A eternidade de Senna ficou. Mas não a falsa eternidade de que era imbatível. O próprio Schumacher se encarregou de mostrar que era, sim, possível ganhar quatro títulos mundiais como Prost ou cinco como Fangio. Mas fez mais e ganhou sete!

Então Schumacher virou o novo exemplo de eternidade. E de novo a vida mostrou como é efêmera a eternidade no esporte. Super-homem como Senna, Schumacher foi derrotado por um bobo acidente quando se divertia na neve com um esqui. E depois na pista com os sete títulos e as mais de 100 vitórias de Hamilton.

Maradona era eterno? Como jogador, eternizou “la mano de Diós” na Copa de 1986, contra a Inglaterra, e aquele gol de mão tocou a alma do argentino humilhado pela Guerra das Malvinas. Depois os argentinos queriam que Messi fosse um novo Maradona. Na ausência do eterno que passou, queriam um novo eterno para colocar no lugar.

Nem mesmo de posse da Copa do Mundo da Fifa Messi será eterno como Maradona. A eternidade, no esporte, tem prazo de validade, como o doping de Maradona, na Copa de 1994, comprovou.

Toda eternidade só vale enquanto dura. Um herói do esporte, como o amor, não é imortal, posto que é chama. Nós, jornalistas, devemos saber que o amor do público e do técnico é infinito, mas só enquanto durar.

 

* Sérgio Quintanilha é jornalista e doutorando pelo PPGCOM-ECA-USP